Condepacc tomba 33 bens ferroviários em Campinas


Imóveis e equipamentos contam história das ferrovias e do desenvolvimento da Campinas Urbana

Parte do complexo da antiga estação ferroviária central de Campinas

Parte do complexo da antiga estação ferroviária central de Campinas | Foto: Rodrigo Zanotto

Por Maria Teresa Costa | Correio Popular/Sindicato dos Ferroviários

Trinta e três bens remanescentes das antigas companhias de estradas de ferro Paulista e Mogiana, parte do complexo ferroviário central, foram tombados pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Cultural de Campinas (Condepacc).

O tombamento, este mês, praticamente fecha o ciclo de preservação do patrimônio ferroviário central. Falta apenas definir quais das locomotivas abandonadas no pátio e que estão virando sucata serão tombadas. O restante do material, até mesmo o solo, já é patrimônio cultural de Campinas.

A proposta do conselho é preservar algumas locomotivas que estão abandonadas perto da Rua Salles de Oliveira para que possam integrar um futuro museu ferroviário no Parque Cultural Campinas, recém-criado (leia texto nesta página).

As últimas decisões vão salvaguardar imóveis e equipamentos que ficaram fora do tombamento da estação e prédios administrativos e garantir que toda a memória da ferrovia, no entorno da Estação Cultura, seja preservada.

Da área da Companhia Paulista de Estradas de Ferro, foram tombadas a cabina, os depósitos das locomotivas elétricas e a vapor, vestiário das locomotivas a vapor, a casa de areia, o prédio da administração da casa de carros, a alvenaria da caixa d’água da antiga rotunda, a casa do rádio, o prolongamento em estrutura metálica da baldeação, a baldeação, o escritório, poço, balança, cabina, departamento de linhas, controle de tráfego centralizado, torres de sustentação da catenária (sistema de distribuição e alimentação elétrica), torres de iluminação, bueiro capeado e os pátios.

Da Companhia Mogiana, estão preservadas as áreas da escola ferroviária, vestiário da antiga quadra de esportes, restaurante, contadoria, vestiário coletivo, oficina nova, museu, mictório da oficina, areeiro, depósito de ferro, fundição, depósito de óleo e bronze, a nova casa de carros, pátios, espaços vazios entre as edificações que compõem o complexo ferroviário situados entre o depósito da locomotiva a vapor e a rotunda e os trilhos das linhas mortas.

Locomotivas que permanecem abandonadas perto da Rua Salles de Oliveira | Foto: Carlos Sousa Ramos/AAN

Locomotivas que permanecem abandonadas perto da Rua Salles de Oliveira | Foto: Carlos Sousa Ramos/AAN

Desenvolvimento

A preocupação em determinar a preservação do complexo em sua totalidade deve-se ao fato de a Estação de Campinas, inaugurada em 11 de agosto de 1872 e construída seguindo os padrões arquitetônicos ingleses do século 19, ser testemunha das profundas transformações urbanas que Campinas vivenciou naquele período, especialmente dos nascentes processos de industrialização e urbanização.

Grande parte dos imóveis existentes no Centro está tombada, na tentativa de garantir a memória de um pátio ferroviário que desempenhou papel de importante eixo de transporte durante o período cafeeiro.

A ferrovia e a estação do pátio eram relacionadas à pujança econômica da época, além de serem símbolos dos ideais de modernidade e progresso da cidade.

A partir da década de 1930, com a crise do café, a falta de incentivo à malha ferroviária paulista e uma posterior política de priorização do sistema rodoviário, o transporte ferroviário em Campinas também teve seus serviços paulatinamente desativados e as estações e oficinas a ele destinadas, abandonadas.

Criação de parque reserva o espaço para cultura e lazer

O Complexo Ferroviário Central da Fepasa passou a se chamar, desde a última segunda-feira, Parque Cultural Campinas. Mais que uma mudança de nome, a alteração feita pelo Condepacc, veta qualquer possibilidade de aquela área ser utilizada no futuro para empreendimentos habitacionais e comerciais. Na prática, significa enterrar de vez a megaintervenção urbanística projetada pelo arquiteto Jaime Lerner no governo do prefeito Hélio de Oliveira Santos (PDT), único projeto existente na Prefeitura para aquela área e que só não saiu por falta de investidores.

Uma das construções da área, remanescente do final do século 19.  Foto: Dominique Torquato/AAN

Uma das construções da área, remanescente do final do século 19. Foto: Dominique Torquato/AAN

Existem muitas ideias de ocupação do parque, mas com a definição do Condepacc, disse a historiadora Daisy Ribeiro, da Coordenadoria Setorial do Patrimônio Cultural (CSPC), seu uso terá que ser, obrigatoriamente, direcionado à cultura, ao lazer, ao esporte e a espaços de convivência. Se o projeto da Prefeitura, de transformar a área na segunda Lagoa do Taquaral de Campinas — pelo potencial de atração de visitantes — chegar a ser implantado, o Parque Cultural Campinas, disse a historiadora, será o maior complexo ferroviário tombado destinado à cultura.

O conjunto é delimitado pela área em forma de polígono que começa no cruzamento entre a Rua General Osório e a Rua Lidgerwood, segue até a Praça Marechal Floriano, até a Rua Cônego Cipião, segue por esta até a Avenida João Jorge, Rua Francisco Teodoro, Rua Coronel Antônio Manoel, vira à esquerda e segue até a Rua Dr. Salles de Oliveira, Rua Dr. Pereira Lima, Rua Dr. Mascarenhas, Rua Ricardo, vira à direita e segue até seu final, quando encontra a Rua Lidgerwood, no ponto inicial deste perímetro.

Inventário vai determinar liberação de imóveis do entorno

O Condepacc deverá liberar grande parte dos imóveis do entorno da área ferroviária central e que, mesmo não sendo patrimônio, estão submetidos às regras do tombamento e não podem sofrer qualquer alteração sem autorização prévia do conselho. Esses imóveis estão dentro de uma área de 300 metros ao redor do complexo ferroviário, incluindo áreas do Centro e da Vila Industrial, e já começaram a ser revistos.

Aqueles que tiverem interesse histórico, cultural ou arquitetônico terão abertos processos de tombamentos. Os demais serão liberados.

O tratamento que será dado ao entorno da área ferroviária, disse a historiadora Daisy Ribeiro, da Coordenadoria Setorial do Patrimônio Cultural (CSPC), é o mesmo que o conselho tem adotado em relação aos demais bens tombados da cidade.

Existem atualmente cem resoluções de tombamento envolvendo imóveis isolados, conjunto de imóveis, praças e matas, e que, na maioria dos casos, determina que nada pode ser feito dentro de uma área de 300 metros de raio do bem tombado sem aprovação prévia do conselho.

Para a historiadora, o engessamento dessa área fazia sentido antes, quando não havia um inventário do Centro Histórico e a preservação desses espaços era necessária. “Hoje, temos condições de definir os tombamentos sem esse engessamento”, afirmou.

A tendência do Condepacc nos últimos tombamentos, disse, tem sido a de definir área envoltória igual a zero, mantendo a necessidade de consulta apenas para o imóvel tombado.

“Regulamentando a área envoltória, garante-se a visibilidade do bem tombado e a harmonia da área com a fixação de parâmetros a serem adotados no caso de uma reforma, por exemplo”, explicou Daisy. Ocorre, no entanto, que muitas resoluções foram tão rígidas que acabam por impedir até a própria manutenção do bem tombado.

As análises dos imóveis da área envoltório estão ocorrendo com base no levantamento histórico, com mapas, protocolos, plantas que formam o inventário do Centro Histórico e Centro Expandido. Nesse inventário, estão cadastrados cerca de 6,7 mil registros de pedidos de reforma, ampliações, construções de imóveis entre 1892 e 1945 e pelo menos 40% dos imóveis relacionados poderão ser tombados pelo Condepacc.

São imóveis que testemunham um período em que o espaço geográfico campineiro foi transformado pela crescente urbanização, consolidada pelo processo de industrialização. Desse mecanismo surgiu um novo padrão urbanístico. A partir de 1925, a área urbana começou a ser alargada, duplicando suas dimensões durante os anos, com o retalhamento das chácaras periféricas e de antigas e improdutivas fazendas de café, devido, principalmente, à demanda por habitação.

Dentro das áreas envoltórias existem imóveis comuns e também os chamados indicados para preservação, cujos proprietários precisam seguir as regras de bens tombados, mas não têm os benefícios daqueles reconhecidos como patrimônio, como o desconto de impostos. Quem reformar, demolir ou fizer alterações em imóveis nessa categoria pode ser multado em 30% do valor do bem.

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