Entrevista: Mobilidade para pessoas, bens e serviços


Mobilidade #noticiaferroviariaMatéria publicada na Revista NTU Urbano Edição 9.

Em meados da década de 90, quando participou da fundação do Instituto de Desenvolvimento, Logística, Transporte e Meio Ambiente (Idelt), Frederico Bussinger carregava na bagagem a experiência de cinco anos na Direção de Operações do Metrô de São Paulo e a presidência da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos. Conhecia bem os gargalos no desenvolvimento da mobilidade urbana da maior cidade do Hemisfério Sul e já fazia prognósticos sobre a saturação da malha viária e consequente caos nos deslocamentos urbanos.

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Para ele, a solução está na forma de tratar o problema. “A qualidade de vida e a produtividade estão muito mais associadas à acessibilidade aos locais de trabalho, estudo, compras, e lazer, que à mobilidade. É possível ter índice de mobilidade menor e, ainda assim, ter maior acessibilidade”, defende.

Bussinger é um dos participantes do painel “Como atender as demandas sociais” do Seminário Nacional NTU, debate que acontece em 27 de agosto, em Brasília. Em entrevista à NTU URBANO, o especialista ressalta que a mobilidade urbana não é apenas uma questão de transporte público. A análise dessa problemática deve envolver tanto pessoas como cargas e serviços. Ele ainda fala sobre tarifa, projetos e planejamento.

O Brasil tem vivenciado uma crise de mobilidade urbana e a cada dia as cidades param ainda mais. Além da qualidade de vida, essa situação impacta diretamente na produtividade e competitividade do país. Quais as soluções em mobilidade poderiam ser implementadas em curto e longo prazos para equacionar esse problema?

Não há saída nem simples e nem fácil. Para enfrentar o desafio, entendo que devemos começar a mudar profundamente a forma de tratar o problema. Há uma ideia arraigada mesmo entre planejadores, projetistas e gestores do setor, de que quanto mais mobilidade melhor. Mas nem sempre. A qualidade de vida e a produtividade estão muito mais associadas à acessibilidade aos locais de trabalho, estudo, compras, e lazer do que à mobilidade. É possível ter índice de mobilidade menor e, ainda assim, ter maior acessibilidade.

Quando falamos de mobilidade, normalmente temos pessoas em mente. Nos esquecemos que cargas e serviços também precisam se deslocar no tecido urbano. Não há uma mobilidade de pessoas e outra mobilidade de cargas e de serviços. Todos utilizam e disputam praticamente o mesmo espaço, a mesma infraestrutura.

A busca por soluções, normalmente, se concentra no aumento da oferta com a participação do transporte coletivo na matriz de transportes para enfrentar os congestionamentos crescentes. Mas, como a história brasileira já demonstrou, todo aumento de oferta implementada isoladamente e “atrás da demanda” tem prazo de validade curto. Assim, seria desejável explorar a gestão da demanda, que consiste em reduzir a necessidade de deslocamento, as distâncias percorridas e os fatores de pico.

Para o eficaz enfrentamento da mencionada “crise”, tão ou mais importante que ela, são as mudanças conceituais e de abordagem e a forma de organização da economia e da cidade.

Uma das questões que impulsionaram as manifestações em junho de 2013 foi o reajuste tarifário do transporte coletivo por ônibus. Os governos municipais não têm condições de subsidiar as tarifas e, cedendo às pressões populares, desestruturam o orçamento público. Qual a sua avaliação sobre esse cenário?

Não nos enganemos e nem queiramos enganar os outros. É uma ilusão, um desserviço vender-se ou deixar-se veicular acriticamente a ideia de que é possível melhorar a qualidade do transporte coletivo mantendo as tarifas vigentes. Menos ainda se reduzi-las.

Outro caminho requer que, além dos usuários, também seus beneficiários participem do “funding” do setor (custeio e investimentos): empregadores, concedentes de gratuidades (idosos, estudantes, etc.) e, principalmente, usuários de transporte individual. Esse é o conceito que fundamenta, por exemplo, o Vale-Transporte e a destinação da CIDE para o transporte coletivo.

A solução passa, inexoravelmente, por aumento de tarifas ou aumento de subsídios ao setor. E até mesmo a combinação dos dois. Mas ainda com todas essas contribuições, certamente, a forma de financiamento do setor precisará também ser revista. Seja para seu custeio, seja para os investimentos necessários para se atingir o padrão de qualidade desejado.

E, em tempo, o que é tarifa social? Penso não haver clareza sobre o que seja. Muito menos consenso.

Como país sede da Copa do Mundo, o governo federal disponibilizou verba a projetos voltados para mobilidade urbana e transporte público. Alguns saíram da Matriz de Responsabilidade e a grande parte não ficou pronta a tempo do Mundial. Quais as suas expectativas em relação a esses projetos? Podem ser um legado futuro?

Certamente as obras ficarão prontas um dia. Mas elas padecem de uma dificuldade que é bem mais ampla no país. Abrange quase todos os setores de infraestrutura e serviços públicos.

Os projetos são necessários, mas, sem que se tenham claro quais são suas premissas e objetivos, grandes investimentos podem até resultar na geração de outros problemas.

A métrica da ação não pode, portanto, ser apenas volume de investimentos. Associados aos objetivos devem ser estabelecidos indicadores de resultados e, principalmente, serem diligentemente monitorados.

O que falta para que as cidades e município planejem adequadamente o transporte público e mobilidade urbana? Essa questão estaria ligada a vontade política e capacitação técnica dos órgãos gestores?

No Brasil, “falta de planejamento” é bordão recorrente. Mas que planejamento? Normalmente, o foco é apenas o plano e esse, restrito ao o que ser feito. No entanto, tão importante quanto o plano é seu processo de elaboração. É ele que pode facilitar a geração de compromissos. Também é preciso levar em consideração fontes de recursos e variáveis ambientais. Caso contrário, não se pode considerá-lo um plano. A Lei 12.587/2012, em si, é boa. Mas é insuficiente para mudar a realidade. Aposto muito mais em articulações, participação, projetos e gestão.

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