Conselho tomba prédios da imigração na área férrea em Campinas


Complexo histórico da Hospedaria dos Imigrantes, formado por três imóveis na Rua Salles de Oliveira, passa a ser patrimônio de Campinas

Oficinas de Campinas #noticiaferroviaria

Por Maria Teresa Costa | Agência Anhanguera

Três edifícios construídos na área ferroviária de Campinas para receber os imigrantes que chegavam no Estado de São Paulo e ficavam em quarentena antes de ir trabalhar na lavoura ou nas indústrias da região passaram à categoria de patrimônio de Campinas pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Cultural de Campinas (Condepacc). Pela Hospedaria dos Imigrantes, conjunto construído na Rua Salles de Oliveira, passaram cerca de 1,5 mil pessoas entre 1904 e 1909, segundo o historiador Henrique Anunziatta, que durante dois anos pesquisou esses prédios para montar o processo de tombamento.

Abrigos receberam 1,5 mil pessoas entre 1904 e 1909

Eles começaram a ser construídos em 1887, ainda no Império, mas os trabalhos pararam. As obras só foram retomadas em 1892 e finalizadas em 1904, simbolizando a primeira intervenção, do ponto de vista administrativo, da República em Campinas, segundo a historiadora da Coordenadoria Setorial do Patrimônio Cultural (CSPC), Daisy Ribeiro.

Não foi a primeira hospedaria de imigrantes de Campinas. De acordo com Anunziatta, existiu, desde 1885, uma hospedaria provisória no Largo de Santa Cruz. Nesta época, o acolhimento dos imigrantes em Campinas era realizado nos galpões da antiga fábrica dos Irmãos Bierrenbach no Largo de Santa Cruz, funcionando como alojamento provisório. Esses albergados, geralmente sem destinação pré-determinada, permaneciam aguardando propostas de trabalho ou mesmo esperando a chegada de suas bagagens e pertences. Parte deles esperava baldeação para o destino final. Os dados sugerem que o abrigo tinha, inclusive, regulamento próprio.

O historiador apurou que há registros de que o Mercado Grande teria sido usado em situação emergencial como alojamento dos imigrantes. “Realmente, em abril de 1885, uma grande leva de imigrantes italianos e portugueses chegou
em Campinas, parte com destino certo e outros sem contratos de trabalho. A situação foi tão grave que os acontecimentos de Campinas repercutiram na Corte”, disse.

Segundo a pesquisa de Anunziatta, a Gazeta de Notícias, editada no Rio de Janeiro, em 21 de abril de 1885, reproduzia notícia estampada no Diário de Campinas, tratando da situação de imigrantes italianos e portugueses que perambulavam
pelas ruas da cidade. “A pobre gente queixavase muito, registra o periódico campineiro. Desorientados, muitos deles, afastados de
seus familiares e sem destino estabelecido, caminhavam pela cidade desesperados”, informava. O Diário recomendava que deveriam permanecer no alojamento dos imigrantes. “É muito inconveniente deixar saírem do alojamento de imigrantes todos aqueles que não tenham obtido colocação imediata, pois ficam desamparados, sem recursos, num estado de desespero que inspira a maior comiseração.”

Esse quadro de relativa dificuldade vivido pelos imigrantes levou o vereador José Paulino Nogueira, em outubro de 1887, a sugerir à Câmara a criação de hospedaria para imigrantes, e seus familiares, que eram destinados aos trabalho nas fazendas de Campinas e da região. Campinas, como importante entroncamento ferroviário e centro dinâmico da agricultura de exportação, carecia de um ponto receptor e difusor de colonos estrangeiros no entendimento do vereador.

O terreno escolhido ficava na Rua Francisco Theodoro, com fundos para a Rua Salles de Oliveira, na Vila Industrial. Foi construído naquela área, mas a formalização da aquisição do terreno não foi finalizada. A regularização do imóvel se deu apenas em 1909. Nesse período, disse Anunziatta, foi um alojamento que quase nada alojou e uma hospedaria que pouco hospedou — cerca de 1,5 mil pessoas em cinco anos.

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