‘Trem no quintal’ causa tensão constante


Por Paulo Medina | Jornal Todo Dia

Beira da linhaIlhados e vivendo a poucos passos da linha férrea, moradores da região sofrem com uma série de transtornos e problemas causados pelo traçado ferroviário quase dentro do quintal de casa. Em alguns casos com as residências a cinco metros dos trilhos, crianças, jovens e idosos têm o sono prejudicado, veem a casa tremer, vivem em constante perigo e com o ensurdecedor barulho das locomotivas. Relatam ainda problemas atraídos pelos trilhos, como usuários de drogas e lixo.

Esses são alguns reflexos de uma rotina restrita, à beira da insegurança e do improviso na linha férrea. A situação foi observada em cerca de 20 quilômetros de trilhos entre Nova Odessa, Sumaré e Hortolândia, onde o TODODIA encontrou pessoas que vivem o ponto máximo dos problemas causados pela linha férrea na malha urbana. Esse problema vem sendo discutido intensamente desde 2010, quando um trem arrastou um ônibus e matou dez pessoas em Americana.

Desde então, alguns prefeitos chegaram a encampar o discurso de transferir os trilhos da área urbana, mas a discussão foi abandonada com a negociação de obras de transposição da linha.

Beira da linha2A insegurança ronda não apenas quem vive perto dos trilhos, mas também quem tem lá passagem obrigatória, já que, em muitos pontos, a linha férrea divide a cidade.

O assunto voltou à tona depois da morte de Maria de Lourdes Sampaio Fausto, 44, atropelada em uma travessia clandestina, no dia 22 de outubro, em Sumaré, quando ia para o serviço. Especialista diz que prefeituras devem agilizar novo local para moradia dessas pessoas (leia na página 4).

Sem audição
A idosa Oralina Rosa Geraldo de Souza, 74, vive há 19 anos no entorno da linha, às margens da Rodovia Astrônomo Jean Nicolini, em Nova Odessa, onde existem cinco residências.

O saldo da proximidade é a perda de parte da audição e inquietude nas madrugadas, justamente no horário em que o tráfego das locomotivas se intensifica. “Às vezes passo à noite toda sem dormir, treme a casa, a janela, derruba copos. Para assistir televisão, a família aumenta no último o volume e mesmo assim não consegue escutar e precisa falar bem alto. A buzina é ensurdecedora”, disse, ao comentar a passagem de um trem a cada três horas em dias de semana e de hora em hora aos domingos, segundo suas contas. Para ela, outro incômodo é a falta de iluminação.

Acordado
O supervisor de montagem João Batista da Silva, 47, chega a acordar dez vezes por noite, em Nova Odessa. Ele acusa maquinistas de abusarem da velocidade. “Em vez de 15km/h, eles passam a mais de 50km/h, não respeitam a área urbana, principalmente trens que vão sentido Americana, é terrível.”

Desde agosto, Silva e a mulher, Jaqueline, perceberam o aumento de trens na linha. “Antes, aos domingos, passava menos, mas agora virou uma loucura. Quase todos os dias o trem passa 15 vezes, na maioria das vezes. A gente vai deitar e não sabe se vai levantar. E se o trem descarrilar?”, indagou. Ele tem um filho de 3 anos e já prevê prejuízos para a audição do menino.

Vizinha de Silva, a funcionária pública Ilda Batista de Oliveira, 53, mora há 30 anos no local e pede a funcionários da ALL (América Latina Logística), concessionária responsável pelos trilhos, a redução da velocidade. “Antes era menos carga e mais devagar. Agora passam com cerca de 80 vagões e ano passado descarrilou um trem a 400 metros de casa. A iluminação deveria ser melhor”, disse.

Ela diz que já flagrou acidentes fatais com búfalos, cavalos e vacas. “Há um ano, um homem também foi atravessar por aqui de moto, enroscou nos trilhos e para sobreviver ele teve de abandonar o veículo”.

Risco
Com a visão afetada há dois meses, o aposentado Manuel Pires, o Manuelito, 73, mora sozinho e enxerga a uma distância de dez centímetros. Toda vez que precisa atravessar a linha, depende da ajuda de vizinhos, em Nova Odessa. O principal perigo, para ele, é a quantidade de lixo ao lado da linha.

Manuelito ainda combate a infestação de ratos e bichos peçonhentos na casa, rodeada por mato. “Tenho de passar veneno”.

Na Vila São Francisco, em Hortolândia, o excesso de usuários de drogas, a insegurança e jovens que se arriscam com a prática do chamado “surfes ferroviário” são as preocupações da dona de casa Talita da Silva Gomes, 26.

Ela reside a cerca de 15 metros da linha.

“Sem falar que meu bebê de 3 anos chora por não conseguir dormir com o barulho. Aqui tem muito drogado que usa crack e gente pegando carona no trem.”

Do bairro Chácara Três Pontes, em Sumaré, Carloman Ribeiro da Silva, 71, afirma que os “surfistas” usam a locomotiva para viajar de uma cidade para outra.

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