Histórias de cidades e times do interior de São Paulo são ligadas pela ferrovia


Força econômica do início do século passado, ferrovias do estado definiram contornos regionais do Paulistão, criaram rivalidades e são lembradas até nos apelidos dos times

Por Eric Mantuan | Globo Esporte

O que teriam em comum, além da vaga no Paulistão, os times do Botafogo, Capivariano, Grêmio Osasco Audax, Ituano, Linense, Marília, Mogi Mirim, Penapolense, Ponte Preta, RB Brasil, Rio Claro, São Bento e XV de Piracicaba? Os representantes do interior no campeonato estadual se conectam pelos trilhos das ferrovias paulistas.

Grande força econômica do início do século passado, período que corresponde à fundação da maioria das equipes, as ferrovias do estado definiram os contornos regionais do Paulistão, criaram rivalidades e são lembradas até nos apelidos das equipes.

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Trilhos, chuteiras e bolas já se misturam desde o final do século XIX, quando a família Miller chegou ao Brasil. O patriarca, John, havia deixado a Inglaterra para trabalhar na São Paulo Railway, a ferrovia entre Santos e Jundiaí. Foi seu filho, Charles, que, anos mais tarde, introduziu a prática do esporte no país. O primeiro estádio de futebol do Brasil, inclusive, foi construído em área ferroviária, na vila de Paranapiacaba, em Santo André.

Atualmente, por conta do processo de abandono das ferrovias do estado, acelerado a partir dos anos 1980, algumas das cidades não veem os trens há anos. As histórias, contudo, persistem. Veja:

BRAGANTINA
A Estrada de Ferro Bragantina saía de Campo Limpo Paulista, na região de Jundiaí, e chegava à Bragança Paulista, tendo sido inaugurada em 1884. A ferrovia foi extinta em 1967, quando pertencia à Estrada de Ferro Sorocabana. Dois anos antes, o Clube Atlético Bragantino, surgido em 1928, chegava à Divisão Especial do futebol paulista pela primeira vez.

MOGIANA
A Companhia Mogiana de Estradas de Ferro foi criada em 1875 com o intuito de ligar Campinas a Mogi Mirim para o transporte de café. Na cidade fundada pelos bandeirantes e ponta de linha inicial da CMEF, o Mogi Mirim EC surgiu em 1932.

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A expansão da linha, que mais tarde alcançaria Brasília e o Triângulo Mineiro, passa por Ribeirão Preto em 1883. A cidade fundada em 1856 vivia da mineração e do café. Em 1918, os funcionários da Mogiana participam da criação do Botafogo Futebol Clube, formado pela fusão de três equipes de futebol amador. Até a expressão – ‘botar, colocar fogo’ – veio do vocabulário ferroviário.

NOROESTE
Com a missão de ligar os oceanos Atlântico e Pacífico, a Estrada de Ferro Noroeste do Brasil foi fundada em 1904, em Bauru, conectando o interior paulista com a Bolívia. Entre centenas de povoados formados e desenvolvidos à beira da ferrovia, surgiram Lins e Penápolis.

Pantera da Noroeste: menção à ferrovia no apelido do Penapolense (Divulgação / CA Penapolense)

Pantera da Noroeste: menção à ferrovia no apelido do Penapolense

A estação que deu origem à terra natal do Linense foi aberta em 1908, com o nome do político Albuquerque Lins. Por pouco a cidade não recebeu outro nome: a Noroeste pretendia batizar a estação como Campestre. O município foi instituído em 1920 – portanto, 16 anos após a abertura da parada ferroviária. O Linense foi fundado em 1927, e carrega o apelido de Elefante da Noroeste.

Onde hoje é a cidade de Penápolis, a ferrovia passou em 1908 por um pequeno povoado, formado pelos primeiros brancos colonizadores e pelos frades capuchinhos, chamado de Santa Cruz do Avanhandava. A Noroeste fez mudar seu nome para o atual em 1909, como homenagem ao presidente Afonso Pena, falecido no mesmo ano.

A ferrovia também é lembrada até hoje, mesmo que inconscientemente, por aqueles que torcem para o Penapolense: fundado em 1944, o time é conhecido como Pantera da Noroeste.

PAULISTA
O objetivo da Companhia Paulista de Estradas de Ferro, aberta em 1872, era transportar café da zona produtiva do interior de São Paulo até Campinas, então centro agrícola, conectando-se com outra ferrovia em Jundiaí e chegando a Santos. Dentro das terras campineiras, o traçado da ferrovia cortou a região do Bairro Alto, de relevo acidentado, obrigando a construção de uma ponte sobre a vala onde passaram os trilhos.

A Ponte Preta sobre os trilhos da Paulista, em Campinas, ainda existe

A Ponte Preta sobre os trilhos da Paulista, em Campinas, ainda existe

Ao receber uma camada de piche, para conservar a estrutura, a ponte acabou recebendo o apelido de “Ponte Preta”, que acabou batizando tanto o bairro onde estudantes começaram a jogar futebol em um terreno na beira da linha do trem, quanto a agremiação esportiva, surgida em 1900.

Em 1948, a Ponte Preta construiu nas redondezas o Estádio Moisés Lucarelli, tendo a linha da Paulista ao fundo. E ela passou a ser utilizada como “arquibancada” em jogos de grande público, já que permitia a visão do estádio aos que não conseguiam entrar. Em 2015, o estádio também acolherá os jogos do RB Brasil.

Em Rio Claro, vila fundada em 1845, a Paulista chegou em 1876. O núcleo urbano da cidade cresceu a partir de 1892, quando foram instaladas as oficinas de reparos de locomotivas e vagões da companhia, empregando centenas de ferroviários. Entre eles, Bento Estevam de Siqueira, Constantino Carrocine e João Lambach, que fundaram o Rio Claro FC em 9 de maio de 1909.

Entre 1914 a 1930, a equipe utilizou o campo do Grêmio dos Empregados da Companhia Paulista para mandar seus jogos.

E em 1928, a Paulista estava concluindo a construção do Ramal de Agudos com um dilema. Ao chegar ao povoado de Alto Cafezal, não sabia com qual nome iria batizar sua nova estação: Marathona, Macau ou Mogúncia. A única exigência era que fosse escolhido um nome com “M”, já que as estações obedeciam a uma ordem alfabética. Marília, então, foi a sugestão do deputado Bento de Abreu Sampaio Vidal.

O desenvolvimento levado pelo trem foi tão rápido que a vila acabou promovida a cidade em menos de seis meses, vendo nascer em 1942 o Esporte Clube Comercial, atual Marília Atlético Clube. Mas enquanto o MAC cresceu, a ferrovia minguou, e os trens não passam mais por lá desde 2008.

SOROCABANA
O início da Estrada de Ferro Sorocabana está ligado à história de uma outra ferrovia: a Ituana, fundada em 1870 com o objetivo de transportar cargas entre Itu e Jundiaí. Os empreendedores de Sorocaba não concordaram com o trajeto escolhido e em 1872 abriram uma empresa dissidente, implantando a ligação ferroviária entre São Paulo e Ypanema. Sorocabana e Ituana se fundiram em 1892.

Estação de Sorocaba: história de cidades e times da região têm a ver com a EFS (Foto: Museu Histórico Sorocabano)

Estação de Sorocaba: história de cidades e times da região têm a ver com a EFS (Foto: Museu Histórico Sorocabano)

Na terra do atual campeão paulista, Itu, a ferrovia chegou quando a cidade, berço da República, já era bem desenvolvida. Mas ajudou a impulsionar a cultura do café, escolhida como alternativa à crise no mercado do açúcar.Por ali, funcionários da EFS fundaram em 1947 a Associação Atlética Sorocabana, transformada em 1966 em Ferroviário Atlético Ituano.

Ferroviário Atlético Ituano deu origem ao campeão paulista (Arte: Eduardo Teixeira/GloboEsporte.com)

Ferroviário Atlético Ituano deu origem ao campeão paulista (Arte: Eduardo Teixeira/GloboEsporte.com)

Com o passar do tempo, o time da maria-fumaça no escudo foi se transformando até adotar o atual nome de Ituano FC, em 1990.

A Ituana também passava por Capivari, onde os trilhos chegaram em 1875. Na cidade, em 1918, surgiu o Capivariano Futebol Clube, que por muitos anos mandou seus jogos ao lado da estação ferroviária, no Estádio Municipal Fernando de Marco. A ligação ferroviária foi extinta em 1990.

Quando a Ituana chegou a Piracicaba, em 1877, interligando Itu, Jundiaí, Capivari, Indaiatuba e Campinas, a economia já era consolidada com o desenvolvimento do cultivo da cana-de-açúcar. Nesse ano a cidade, chamada de Constituição, recebeu o nome de Piracicaba, em alusão ao rio. Depois, dois times amadores deram origem ao Esporte Clube XV de Novembro, em 1913.

O Estrada, de Sorocaba: rival do São Bento até os anos 60 (Foto: Eric Mantuan)

O Estrada, de Sorocaba: rival do São Bento até os anos 60 (Foto: Eric Mantuan)

Em Sorocaba, fundada em 1654 pelos bandeirantes e cortada pelos trens desde 1875, a ferrovia não está ligada à história do São Bento, atual representante da equipe no Paulistão, mas proporcionou uma grande rivalidade: o clube dos ferroviários era o Estrada, lembrado até hoje como o maior adversário beneditino.

Os times duelaram entre os anos 1940 e final dos anos 1960, primeiro no futebol amador, depois nas divisões de acesso do Paulistão. Do espólio do Estrada surgiu o Atlético Sorocaba, em 1992, o atual oponente do time.

E em Osasco, o Grêmio Osasco Audax, de história recente, não chegou a ver os tempos de ouro das locomotivas. Mas a equipe, transferida da capital paulista, habita uma cidade que se desenvolveu, a partir de 1895, no entorno do quilômetro 16 da Estrada de Ferro Sorocabana, onde havia uma grande cerâmica, uma estação e fileiras de casas.

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