VLT de Dubai é exemplo para o plano campineiro


Projeto pioneiro durou cinco anos em Campinas e era responsável por transportar moradores da região sudoeste para o Centro; entretanto, em 1995, foi completamente desativado

Por Cecília Polycarpo | Correio Popular de Campinas

Trem passa pela parte nobre da cidade e oferece visão panorâmica de vários pontos turísticos

Trem passa pela parte nobre da cidade e oferece visão panorâmica de vários pontos turísticos

É difícil imaginar que o transporte público de Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, fosse quase inexistente há dez anos. A cidade dos superlativos, com o maior prédio, o maior shopping e a quinta maior ilha artificial do mundo, construiu a toque de caixa uma rede completa e articulada de ônibus, metrô, monotriho e hoje tem um dos serviços mais completos e modernos do planeta.

A última novidade são as 11 estações da linha do Veículo Leve sobre Trilhos (VLT), inauguradas em novembro do ano passado. O trem passa pela parte nobre da cidade e oferece visão panorâmica de vários pontos turísticos.

VLT-CampineiroCampinas também teve um VLT durante a década de 90. O projeto pioneiro durou cinco anos na cidade e era responsável por transportar moradores da região sudoeste para o Centro de Campinas — em 1995, foi completamente desativado.

A linha virou então depósito de lixo, submoradia e abrigo para usuários de drogas. Um dos projetos do governo Jonas Donizette (PSB) é reativar os trilhos com um novo VLT, que ligaria agora a região central ao Aeroporto Internacional de Viracopos.

O plano, porém, aguarda liberação de verbas do Ministério das Cidades para virar um projeto de fato, e não tem data para sair do papel.

O diretor de concessão e sistemas de soluções da Alstom, empresa responsável pela construção da linha, Christian Messelyn, afirmou que o VLT seria o meio de transporte ideal para operar em uma cidade do porte de Campinas.

Mais barato e mais simples de ser construído do que um metrô, o VLT tem capacidade de transportar até 30 mil passageiros por dia. “Ele ainda agrega na imagem e requalificação, por causa de sua questão estética, e pode ser facilmente integrado com uma futura linha de metrô”, afirmou Messelyn.

O caso de Dubai é exemplo de como a implantação de meio de transportes sobre trilhos pode mudar em pouco tempo a dinâmica viária de uma cidade grande. Com 2,2 milhões de habitantes, o emirado há alguns anos parecia projetado para ostentar carros de luxo em suas largas avenidas.

O oásis moderno construído no meio deserto tinha poucas faixas de pedestres e trabalhadores sem automóveis dependiam quase somente dos ônibus para circular pelo município.

Mas com uma explosão demográfica em curso (a expectativa é que atinja 3 milhões de habitantes em 2025), o trânsito se tornou um dos principais problemas da governo do sheik Mohammed Bin Rashid Al Maktoum, da dinastia que comanda a cidade desde o século 19.

A remodelação viária de Dubai começou em 2005, quando Maktoum criou a Autoridade de Estradas e Transportes de Dubai (RTA, na sigla em inglês) e encomendou o projeto do metrô. A construção da primeira linha começou no mesmo ano, por meio de um consórcio formado entre empresas japonesas. Em 2009, a linha vermelha do metrô foi inaugurada, ao custo total de US$ 4,2 bilhões.

Já o VLT, que em Dubai e na Europa é chamado de “tram”, foi encomendado em 2012 à multinacional francesa por 700 milhões de euros.

Denominado Al Sufouh, o projeto inclui 11 estações climatizadas e liga destinos badalados, como a área do hotel Burj Al Arab, Dubai Media City e a marina. Desde sua inauguração, a linha atende 27 mil passageiros por dia e deve chegar a 66 mil até 2020. O trem que circula é o modelo Citadis, o mesmo adotado para o projeto do Rio de Janeiro.

A novidade para o primeiro VLT do Golfo Pérsico foi a tecnologia sem catenária, isto é: livre dos cabos superiores que ligam as composições à fiação elétrica. Toda a energia é fornecida no nível do solo, pelo sistema APS (Alimentação Pelo Solo). A eletricidade vem de um fio aterrado.

Em Dubai, a tecnologia precisou ser adaptada para enfrentar condições climáticas extremas, como calor de 55ºC, umidade de 90% durante o Verão e tempestades de areia. Por isso, escovas foram acopladas nos trens para limpar a areia dos trilhos.

City Tour

Andar pelo VLT de Dubai é equivalente a um city tour pela cidade. Os bilhetes podem ser comprados individualmente a 1,80 dirhams, moeda local de Dubai, o equivalente a R$ 1,50. Há ainda vagões mais confortáveis a 3,60 dirhams (R$ 3,10).

A aquisição é feita em um totem eletrônico dentro das estações climatizadas. O próprio usuário passa o bilhete no validador, mas não há catracas — fiscais dentro das estações observam se todos os passageiros passam o tíquete pelo dispositivo.

Por dentro, o vagão é muito similar a um metrô, porém completamente silencioso. As partidas e chegadas são suaves e não há “trancos” como nas linhas de São Paulo, por exemplo.

A primeira estação é a Al Sufouh, na região oeste da cidade, famosa por seus prédios gigantes comerciais e por concentrar escritórios de empresas do mundo todo. O VLT passa por Knowledge Village até a estação Palm Jumeirah, onde é possível fazer a baldeação para o monotrilho.

O monotrilho de Dubai adentra o The Palm Jebel Ali, arquipélago artificial construído em forma de plameira, com cerca de dez quilômetros quadrados. De Palm Jumeirah, o VLT passa, suspenso, por mais duas estações até chegar no Marina Towers, bairro turístico planejado ao redor de um canal artificial.

O “creek”, como é chamado o canal, foi construído em um trecho de três quilômetros ao longo do Golfo Pérsico.

Depois da Marina, a composição entra na área de Jumeirah, uma das praias mais famosas de Dubai. Lá, estão dois dos hotéis mais famosos da cidade, o Burj Al Arab, em forma de vela, e o Jumeirah Beach Hotel, em forma de onda. Em alguns trechos, o VLT passa elevado, oferecendo uma visão privilegiada da cidade.

Para trabalhadores, o novo meio de transporte facilitou o acesso principalmente para a extensa área de Jumeirah, onde o VLT tem três paradas. A inglesa Annabelle Nichols mora na cidade há 12 anos. Funcionária de uma corretora de valores em Dubai Downton, na parte central, mora em Jumeirah.

“Como o bairro de Jumeirah é muito turístico, as pessoas costumam pegar táxi. Mas quem trabalha forma e mora aqui ficava só com a opção do metrô. Com o VLT eu desço muito mais perto de casa”, contou.

Saiba mais

O diretor da área de transporte da Alstom, Marco Contin, veio a Campinas participar de encontro com o prefeito Jonas Donizette (PSB), na última terça-feira, e demonstrou interesse no projeto do VLT da cidade.

Anunciado em julho do ano passado pelo secretário de Transportes, Carlos José Barreiro, o plano aguarda liberação do recurso de R$ 1,2 milhão para o estudo de viabilidade.

Mas para o recurso sair dos cofres da Caixa Econômica Federal e aportar na Prefeitura, o governo federal pediu mudanças nos termo de referência que servirá de base para a licitação de contratação do estudo.

O diretor de concessão e sistemas de soluções da Alstom, Christian Messelyn, afirmou que o VLT seria o meio de transporte ideal para operar em uma cidade do porte de Campinas.

A empresa, que agora aposta em projetos de desenvolvimento completo de sistemas sobre trilhos, sem a necessidade de consórcios, está há 60 anos no Brasil e é responsável pela construção de linhas de metrôs em São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre e Brasília.

Porém, ainda há dúvidas em relação à utilização dos trilhos existentes do antigo VLT para o novo projeto. Isso porque uma das causas apontadas para a baixa adesão ao veículo na década de 90 foi o traçado distante da linha, do Campos Elíseos ao Centro, que cortava áreas com pouco fluxo de pessoas. O projeto também já havia reutilizado a malha ferroviária da Fepasa, o que explica o itinerário periférico.

“Usar a linha antiga do trem talvez não seja mesmo a saída para o novo VLT. Um consultor da Prefeitura já havia dito isso. Mas tudo isso só será respondido no estudo de viabilidade”, explicou o secretário de Administração Silvio Bernardim. A ideia é que o novo traçado seja um anel circular na região central, integrado a uma linha que siga até o Aeroporto Internacional de Viracopos.

O estudo a ser contratado apontará a estimativa de custo de implantação e melhores alternativas de trajetos.

Só depois de concluída esta etapa, será preparada a contratação dos projetos básicos, executivo e obras. A Administração não tem, ainda, a fonte de financiamento para a implantação do VLT em Campinas, mas irá buscar recursos junto ao Ministério das Cidades, dentro do PAC da Mobilidade.

Ainda não existe custo estimado para a construção, mas o VLT de Dubai, por exemplo, com tecnologia sem catenária, custou cerca de R$ 200 milhões por quilômetro. Ainda há a possibilidade do VLT de Campinas ser integrado com outro projeto viário que não saiu do papel, o BRT (Ônibus de trânsito rápido, na sigla inglês).

Fábrica

Se a Alstom assumir o projeto do VLT de Campinas, é provável que os trens sejam construídos no Brasil, em fábrica recém-inaugurada em Taubaté.

A nova unidade é a responsável por fazer as 32 composições que vão integrar o VLT da empresa no Rio de Janeiro. A previsão de entrega é em 2016. A fábrica de 16 mil metros quadrados tem 150 trabalhadores e capacidade para produzir até oito trens por mês.

Como em Dubai, o sistema do Rio de Janeiro fornece eletricidade pelos trilhos, energizados somente no exato local onde a composição está passando. Na cidade maravilhosa, no entanto, a tecnologia será híbrida.

Messelyn explicou que a linha precisará passar por avenidas com tráfego muito pesado, por isso será instalado sistema e APS e baterias, energizadas pelos próprios trilhos enquanto o trem circula.

A Alstom negocia ainda um novo produto, o Axonics, com cidades de médio porte brasileiras. O metrô leve foi criado para concorrer com o BRT. Os municípios onde o novo sistema poderá ser instalado não foram revelados pela empresa.

Saiba mais

Ficha Técnica do VLT de Dubai

Modelo: Citadis

Tamanho: 11 quilômetros

Estações: 11, todas climatizadas

Preço de todo projeto: 700 milhões de euros

Tamanho dos trens: 44 metros, com sete módulos

Tecnologia: APS, a energia vem de um fio aterrado no solo e só é energizado no momento que passa

Velocidade média: 50 km/h

Capacidade de Transporte: 408 passageiros por trem

Quantidade de passageiros que passam por dia: 27 mil

Capacidade de passageiros por dia: 66 mil

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