Ser ferroviário, um sonho de criança realizado


Paulo Estevão-  ALL

Paulo Estevão Lucas da Silva realizou sonho de criança

Apaixonado por trens, Paulo Estevão da Silva é um dos maquinistas que trabalham no Porto

Por Fernanda Balbino | A Tribuna

Aos sete anos, ele sonhava com a possibilidade de entrar em uma daquelas gigantes locomotivas que faziam manobras nas proximidades de sua casa, no Macuco, em Santos. Tempos mais tarde, Paulo Estevão Lucas da Silva não só realizou esse sonho, como passou a comandá-las. A paixão pelos trens se tornou sua profissão. Agora, aos 62 anos, ele celebra o Dia do Ferroviário (comemorado na última quinta-feira,30) com grande orgulho, principalmente por sua história como maquinista no Porto de Santos.

Paulo trabalha na Portofer, empresa que cuida do serviço ferroviário no complexo marítimo e é controlada pela América Latina Logística (ALL) – que, há um mês, se fundiu à Rumo Logística, do Grupo Cosan, formando a Rumo ALL. Nela, também são empregados o filho e quatro sobrinhos do ferroviário, contaminados por seu amor pelos trens.

Entrar no setor foi difícil, segundo o maquinista. Sua jornada começou quando conseguiu uma vaga na Companhia Docas de Santos (CDS, que antecedeu a Companhia Docas do Estado de São Paulo, Codesp, na gestão do Porto), graças a uma indicação do pai, que era guarda portuário.

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Acompanhado pelo filho, Franklin, funcionário na Rumo ALL, o maquinista fala com paixão de sua profissão

“Era um grupo muito fechado naquela época. Só os muito bem indicados iam para a área ferroviária. Eu ainda passei um tempo como operador de armazéns na Docas”, explicou Paulo. Nesta função, ele era responsável pela acomodação das cargas de grãos nos galpões que, até então, eram operados pela companhia.

Só em 1994 (quando a CDS já tinha sido substituída pela Codesp), ele foi transferido para o setor de ferrovias da estatal. Lá, começou a atuar como lavador e lubrificador de locomotivas, função que exerceu por um ano e meio. “Depois, comecei a substituir ajudantes de maquinista que estavam de férias. Só durante o período em que não estavam. Mas fiquei nessa até 1998”, explicou.

Um ano depois, Paulo recebeu uma nova promoção. Desta vez, passou a exercer a função de maquinista. Nela, ele é responsável por receber as composições que chegam ao Porto, trazendo toneladas de produtos agrícolas de diversas partes do Brasil, e conduzi-las até os terminais onde os vagões são descarregados para exportação. E a realização do sonho aconteceu no momento em que houve a privatização das ferrovias, quando o serviço no complexo portuário passou para as mãos da Portofer.

Quando se fala em desestatização, o primeiro temor dos trabalhadores é o desemprego. Mas para Paulo, essa era uma possibilidade que não existia. “Quando a pessoa faz o que gosta, faz da melhor maneira possível, não tem espaço para medo. E o nosso trabalho já estava sendo muito bem acompanhado, antes mesmo da privatização. Foi um processo natural”, relembra.

Evolução

Com a nova fase, surgiu também a evolução do trabalho e o desafio de operar máquinas mais modernas. E ele também teve de evoluir. Um dos desafios foi concluir o Ensino Médio, através de um programa de capacitação da empresa.

“Depois da privatização, a ALL reestruturou pátios e trocou trilhos para receber máquinas mais pesadas, as americanas. Antes, também não passava de 30 vagões e esse número pulou para 80”, explica o maquinista.

Além da paixão pela profissão, que torna seus dias de trabalho em momentos de prazer, o maquinista não esquece seu papel social. “Eu ajudo o meu País a crescer”, afirma. Paulo se refere ao escoamento de boa parte da produção agrícola brasileira que, literalmente, passa por suas mãos diariamente a caminho do exterior. Esse orgulho faz com que o maquinista não pense tão cedo em aposentadoria.

“Enquanto a empresa me quiser, eu vou continuar. Espero que a saúde permita, que eu trabalhe por mais muito tempo. Não vivo sem isso”.

Filho nos trilhos

Dos campos de futebol para os pátios de manobra de vagões no Porto de Santos. Franklin Stevens Dias Lucas da Silva, de 38 anos, mudou de vida quando decidiu seguir os caminhos do pai, o maquinista Paulo Estevão Lucas da Silva. Hoje, ele é um dos líderes da Rumo ALL no cais santista, se orgulha da carreira e não pretende trocar de profissão.

Como grande parte dos garotos brasileiros, Franklin queria ter uma carreira no futebol. E conseguiu, chegando a jogar em times europeus. Mas decidiu voltar ao Brasil após uma temporada de um ano e meio em Portugal.

“Meu sonho era a bola. Mas quando estava buscando uma nova colocação, surgiu a oportunidade de vir para a ferrovia. Aí o sangue falou. Vi que era isso que eu queria fazer e não deixei escapar a chance. Assim, já se vão 11 anos”, conta o líder de pátio da Rumo ALL no Porto de Santos.

O cargo já é o terceiro ocupado por Franklin na empresa. Em alguns momentos, ele se torna chefe do próprio pai, que foi e ainda é seu modelo e maior professor.

Devido à uma política da empresa, o contato profissional entre parentes não é grande. Como são separados por turmas, apenas em caso de trocas de turnos pai e filho se encontram nos pátios de manobras. “Meu pai já criou uma história aqui dentro. Agora é a minha vez de fazer um bom trabalho e ser reconhecido”, conta o filho, sob os olhares atentos e orgulhosos de Paulo Estevão Lucas da Silva.

Vestir a camisa

Dos campos, Franklin levou o amor pela camisa que veste para ganhar a vida. “Coloco essa camisa e me sinto o dono da empresa. Faço de tudo para que o trabalho saia perfeito. Penso na minha empresa, na minha família e no meu País”.

Participar do escoamento do agronegócio brasileiro também é motivo de grande orgulho para o líder de pátio. Essa é uma das características que ele herdou, durante os anos em que ser ferroviário era apenas ouvir as histórias que o pai contava.

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