Mulheres pobres são as que mais apoiam criação de vagões femininos, mas não são as que mais usam os trens


Mariana Barros | Veja.com

Movimentação de passageiros no Metrô de São Paulo (Foto Tiago Chiaravalloti/Futura Press/VEJA)

Movimentação de passageiros no Metrô de São Paulo (Foto Tiago Chiaravalloti/Futura Press/VEJA)

Você acha boa ideia separar homens e mulheres nas linhas de transporte coletivo para evitar situações de assédio? É essa a melhor maneira de garantir que as mulheres possam viajar tranquilamente nos horários em que os vagões estão superlotados? Um levantamento exclusivo feito pelo Instituto Paraná Pesquisas para o blog Cidades sem Fronteiras revelou que, em São Paulo, o perfil dos apoiadores da medida é composto por mulheres de 25 anos a 34 anos, que estudaram só até o ensino fundamental e pertencem às classes D e E.

Porém, esse não é o perfil típico do usuário do Metrô. De acordo com uma pesquisa sobre o perfil do usuário feita pelo Metrô no ano passado, a maioria dos passageiros do sistema tem ensino médio completo e renda familiar de 5.030 reais, ou seja, pertencem às classes C e B. Assim, as apoiadoras da criação dos vagões exclusivos não são necessariamente usuárias da rede nem vivem diariamente o sufoco de escapar de situações constrangedoras na hora do rush.

Suas respostas revelam, acima de tudo, uma maneira de pensar, ainda que não baseada em experiência própria. Entre as mulheres de classe média que cursaram ensino médio, parcela que mais utiliza os trens e supostamente enfrenta o assédio com maior frequência, os percentuais de apoio de vagões femininos é menor.

O estudo do Instituto Paraná Pesquisas não foi feito somente com usuários de transporte público, mas com 1.054 habitantes da cidade com mais de 16 anos, numa amostra estratificada por sexo, faixa etária, escolaridade e localização. As entrevistas foram feitas pessoalmente entre 15 e 18 de junho deste ano. O grau de confiança é de 95%, e a margem de erro é de três pontos percentuais, para cima ou para baixo. A Paraná Pesquisas está registrada no Conselho Regional de Estatística da 3ª Região sob o nº 6288/10 e é filiada à Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa (ABEP) desde 2003.

Como não há uma pesquisa sobre o assunto feita exclusivamente com usuários do Metrô ou mesmo de trens da CPTM, o estudo do Paraná Pesquisas revela o que a população pensa sobre o tema de maneira geral e identifica quais os grupos que, pelo menos em teoria, consideram uma boa ideia separar homens e mulheres no transporte público. Dentro do universo de entrevistados, prevaleceu o “não”: 53,1% dos paulistanos são contrários ao chamado vagão rosa, e 45,3% favoráveis a ele.

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Já entre as mulheres, 51,4% acham que deveriam ser adotados vagões separados e 47% acham que não. Entre os homens, apenas 38% concordam com a medida e 60% acham que deveriam ser mantidos os vagões mistos.

No recorte por idade, a faixa etária entre 16 e 24 anos é a que menos apoia a medida: 37,9% são favoráveis e 60,9% contrários. A situação se inverte na faixa imediatamente superior, que vai dos 25 aos 34 anos: 50,4% apoiam e 48,7% são contrários.

vagão femininoO apoio é maior entre as classes mais baixas e as pessoas de menor escolaridade.A grande maioria dos que têm ensino superior e pertence às classes A e B considera que não deveria ser feita a separação entre homens e mulheres.

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No Japão, a separação por sexo por implantada em 2010. Outros países como Índia, Rússia e México adotam medidas semelhantes (leia mais aqui).

Em São Paulo, a Assembleia Legislativa chegou a aprovar a criação de vagões rosas no ano passado, mas o projeto foi vetado pelo governador Geraldo Alckmin, que considerou que a medida não resolveria o problema. Grupos feministas afirmam que a segregação equivale a afirmar que as mulheres são culpadas pelo assédio que sofrem. E que a implantação de vagões exclusivos poderia até mesmo encorajar investidas nos vagões comuns, sob o pretexto de que as passageiras a bordo estariam se arriscando a passar por esse constrangimento. Segundo as ativistas, a única maneira de acabar com o assédio é pela educação, e a convivência entre gêneros é parte importante do aprendizado.

A separação de homens e mulheres nos vagões vigora no Rio de Janeiro desde 2006 e em Brasília desde 2013, mas não há fiscalização para garantir que os homens não usem os vagões. Segundo depoimentos de usuários, muitos homens usam os vagões destinados a mulheres por serem mais vazios e não há nenhum tipo de orientação ou sanção a esse comportamento.

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