A volta do trem: um sonho possível


Saudosa estrada de ferro entre Cachoeiras de Macacu e Nova Friburgo pode ser um atrativo turístico para o século XXI

Volta do tremO trem deixou de circular em Nova Friburgo e região na década de 1960 do século passado. Mas a verdade é que deixou saudades entre aqueles que o vivenciaram. Por mais de uma vez surgiram comentários de que havia interesse no retorno do trem pelo menos no trecho da serra entre Boca do Mato, em Cachoeiras de Macacu, e Theodoro de Oliveira, em Nova Friburgo. E, como sempre, o assunto caía no esquecimento sem que nenhuma solução fosse apresentada.

Para saber se ainda resta um fio de esperança para a possibilidade desse trem da serra se tornar realidade, A VOZ DA SERRA recorreu a um dos especialistas do tema em Nova Friburgo, o ex-ferroviário e escritor Ordilei Alves da Costa, autor do livro “O apito do trem”. Ordilei por sua vez solicitou as considerações do amigo Antonio Pastori, vice-presidente da Associação Fluminense de Preservação Ferroviária (AFPF), que analisou a possibilidade da implantação de um trem turístico (TT) entre Cachoeiras de Macacu e Nova Friburgo, referindo-se ainda a um trecho—até mais provável—entre Murinelli e Dona Mariana, em Sumidouro.

O SONHO – Pastori lembrou a saudosa estrada de ferro de Cantagalo, que subia a serra entre Cachoeiras de Macacu e Nova Friburgo. E citou que quase toda cidade brasileira que já foi servida por trens de passageiros—e possui atrativos turísticos—sonha em tê-los de volta um dia. Faz sentido, pois a implantação de um TT alavanca o turismo, a economia local e costuma ter a simpatia dos moradores, políticos e empresários da rede hoteleira e gastronômica local.

Contudo, pondera ele, implantar um TT, e ainda os trilhos, é uma tarefa bastante complicada, além de requerer vultosos investimentos na instalação da via permanente e em material rodante. Por causa disso, a grande maioria dos desejosos fica somente no sonho. Por razões diversas, somente uma reduzidíssima parcela de cidades conseguiu realizar esse sonho de ouvir novamente o apito do trem ecoando em suas cidades e campos.

Nos últimos 30 anos, por exemplo, duas dezenas de municípios conseguiram implantar os seus tão sonhados trens turísticos, somando-se aos então sobreviventes que ainda transportam tanto turistas como passageiros em 2.176 quilômetros de vias, o que representa menos de 10% da malha ferroviária brasileira ativa, ora dedicada exclusivamente ao transporte de cargas. A tendência é aumentar os TTs em operação, pois existem muitas cidades com trilhos ociosos, desejosas de pôr o seu trenzinho em circulação.

O trecho solicitado para avaliação, entre Cachoeiras de Macacu, antigo km 115, até Nova Friburgo, perfaz 37,4 quilômetros, cujos trilhos foram retirados em 1966. Pastori diz que apesar de não ter percorrido esse trecho, lista as principais estações que existiam, a sua posição quilométrica, a altitude (em metros) e a inclinação da rampa (veja box abaixo).

MILHÕES – Segundo Pastori, a primeira restrição que se apresenta é a ausência de trilhos e, apesar de não ter percorrido o trecho a pé, ele sabe que não existem ocupações e obstáculos ao longo do antigo leito. A recuperação de todo este trecho, mesmo que seja com trilhos usados, pode custar algo próximo a R$ 50 milhões.

A segunda restrição é quanto à rampa desse trecho, que tem inclinação média de 5%, mais precisamente entre Boca do Mato e Theodoro de Oliveira, dada a inexistência de material rodante—uma locomotiva a cremalheira—em condições de vencer rampas de até 8%, o que demandaria a aquisição de uma nova, ao custo aproximado de R$ 25 milhões.

Além destas, haveria a necessidade de serem recuperadas algumas estações/paradas ao longo do trecho, bem como construir oficinas de manutenção e abrigo para o trem, e outros gastos, o que poderia chegar a R$ 35 milhões. Ou seja, de acordo com o vice-presidente da AFPF, o total seria de R$ 110 milhões, e, considerando a crise que ora atravessamos, fica difícil conseguir o apoio de investidores públicos e privados.

MURINELLI-DONA MARIANA – Porém, Pastori crê ser possível uma segunda alternativa, um pouco mais em conta, que seria a implantação de um TT fora dos limites de Nova Friburgo, num trecho campestre que ele julga belíssimo para uma ferrovia cênica, entre as estações Murinelli (km 191,5) e Mariana (km 181), em Sumidouro, totalizando mais de dez quilômetros, que é a extensão típica da grande maioria dos TTs.

Pastori percorreu esse trecho em 2012 até o terceiro túnel e, por tratar-se de trecho plano, pode ser trafegado por qualquer tipo de locomotiva, não sendo necessária a tração a cremalheira. Além, disso, o leito—também sem trilhos—encontrava-se em condições razoáveis para recuperação e sem ocupações, de forma que poderiam ser instalados trilhos usados e um pequeno trem a ser tracionado por uma locomotiva usada.

Na opinião de Pastori, a grosso modo, essa opção deve representar entre 1/3 a 1/4 da opção anterior na serra, entre Cachoeiras de Macacu e Nova Friburgo, sobretudo porque parte do material poderia ser obtido junto ao Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit), que poderia ceder trilhos usados, locomotiva, carros de passageiros e vagões. “É uma opção que não pode ser descartada”, acrescenta.

ESTUDO E VIABILIDADE – Obviamente, salienta o vice-presidente, trata-se de uma pequena sondagem da AFPF e requer a realização de alguns estudos exploratórios quanto as reais condições do antigo leito—tanto nesse trecho plano como na serra—para melhor estimar os orçamentos preliminares das obras e dos materiais.

Para Pastori, também é muito importante que se faça o inventário do potencial turístico dos dois trechos para dimensionar o fluxo mínimo de passageiros necessários para viabilizar esses projetos. O secretário de Turismo de Nova Friburgo, Nauro Grehs, procurado pela reportagem, encontrava-se em viagem e não pôde comentar o assunto.

Atualmente são 29 os TTs em operação no Brasil, dos quais selecionamos os quatro do Estado do Rio de Janeiro:

tremturistico

– Corcovado – Estação Cosme Velho, no monumento ao Cristo Redentor, com 3,8 quilômetros e mais de um milhão de passageiros por ano;
– Sesc – área do Sesc Mineiro em Grussaí, município de São João da Barra, com dez quilômetros, em operação;
– Estrada de Ferro Mato Alto – área de fazenda, em Guaratiba, com 3,6 quilômetros e visitas agendadas;
– Estrada Real – Paraíba do Sul-Cavarú, com 3,6 quilômetros, paralisado.

A Voz da Serra

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